sexta-feira, 13 de abril de 2012

SILÊNCIO, DIÁLOGO E JUVENTUDE

Rev. Sérgio Andrade
Grande parte da sociedade corre o risco de se relacionar com os jovens como se estes não soubessem absolutamente nada sobre a vida. Nestes tempos, há uma postura arrogante por parte de alguns que pretendem fazer com que a juventude compreenda que precisa abrir os ouvidos e os olhos para escutar aqueles que sabem a direção a seguir.

É bem verdade que com o passar do tempo, muitas pessoas adquirem maiores percepções de sabedoria sobre o mundo que nos cerca. Porém, é preciso considerar que o avançar do tempo não significa, necessariamente, que as pessoas amadurecem. Há muita gente que apenas envelhece. Neste sentido, pais, mães, educadores e tantas outras pessoas são convocadas a enfrentar o desafio do crescimento e da coerência entre a fala e a postura, afinal, os jovens não se deixam enganar.

A imposição de valores e comportamentos tem ocasionado, em inúmeras situações, o distanciamento da juventude de outros atores sociais. Assim como ocorrido nas gerações passadas, toda forma verticalizada de “convencimento” é favorecedora de afastamentos que se manifestam de múltiplas maneiras, afetando todos os envolvidos. Quem sabe, deveríamos nos perguntar: por que os jovens se afastam da família? O que a juventude está dizendo às igrejas e religiões quando assume outros referenciais nas suas escolhas? O que procura o jovem desta geração?

Possivelmente, a abertura ao diálogo é o primeiro passo a ser dado nesta importante tarefa de reaproximação. Compreendemos diálogo como disposição sincera e prática de valorizar o pensamento, o jeito, a história e o conteúdo do outro numa rica troca de experiências, convicções e sentimentos. Dialogar não é simplesmente, como afirmam alguns, a troca de palavras ou pontos-de-vista. Antes, dialogar é, através das palavras, transformar e ser transformado com o outro. Pais que se convertem aos seus filhos. Filhos que se convertem aos seus pais. E assim o diálogo cumpre seu propósito e possibilita a mudança das histórias.

Ainda que seja óbvio, é importante ressaltar que oportunidades de encontro e diálogo somente nascerão em ambientes caracterizados pela amizade. Talvez este seja um dos aspectos mais frágeis nos relacionamentos com a juventude: pais e educadores que não priorizaram a construção de espaços de cumplicidade, partilha, confiança e segurança. Gente que confundiu autoridade com grito. Educação com punição. Diretriz com imposição. Sexualidade com sexo. Presença com presente. Fé com religiosidade.

A construção destes espaços promotores de aproximação irá requerer de todos novas disposições. Será preciso rever conceitos, certezas, maneiras e formas de interpretar a vida e a sociedade; bem como será necessário reafirmar valores e aprendizados que moldam escolhas e formam o caráter das pessoas.

Quem sabe assim, as distâncias serão cada vez menores e pontes poderão ser construídas, pois descobriremos juntos que de fato, como dizia Paulo Freire: ”ninguém ensina ninguém. Aprendemos uns com os outros.”

*Sérgio Andrade é Deão da Catedral Anglicana da SS Trindade e autor do livro “Mara ou Noemi? O Segredo é ser Feliz”.