sábado, 19 de janeiro de 2013

Porque sou Anglicana?

Há algum tempo vejo vídeos na internet de pessoas dizendo “Porque sou Anglicano”. Resolvi fazer a minha declaração por escrito utilizando a música Terezinha de Chico Buarque tomando a liberdade de trocar de posição algumas estrofes.
Tal como alguns adolescentes, tive minha fase rebelde – não acreditava em muitas coisas que hoje são essenciais para mim. Fase esta amarga de tragar. Estava tão perdida, machucada, não consegui encontrar nada e, assustada, eu disse “não”. A este período atribuo as estrofes:

O primeiro me chegou / Como quem chega do bar:
Trouxe um litro de aguardente / Tão amarga de tragar.
Indagou o meu passado / E cheirou minha comida.
Vasculhou minha gaveta; / Me chamava de perdida.
Me encontrou tão desarmada/ Que arranhou meu coração,
Mas não me entregava nada / E, assustada, eu disse “não”.

Foi após este período que descobri a necessidade de buscar uma espiritualidade mais sadia. Foram tantas as pauladas que tive de cresce à força. Essa busca me levou a outros amores, a uma espiritualidade ainda infantilizada, carente e desarmada. Buscava apenas conforto e regalias sem muito a questionar. Encontrei uma igreja e nela me sentia tocada, conheci um Deus cheio de vantagens para aqueles que a seguiam. A este período atribua outras estrofes:

 O segundo me chegou / Como quem vem do florista:
Trouxe um bicho de pelúcia / Trouxe um broche de ametista.
Me contou suas viagens / E as vantagens que ele tinha.
Me mostrou o seu relógio / Me chamava de rainha.
Me encontrou tão desarmada / Que tocou meu coração,
Mas não me negava nada / E, assustada, eu disse “não”.


Os dois amores do passado me fizeram crescer e trancar meu coração. Não queria mais me machucar, ouvir mentiras e promessas. Resolvi que não queria mais me entregar. A esta fase atribuo a estrofe:

O terceiro me chegou / Como quem chega do nada:
Ele não me trouxe nada, / Também nada perguntou.
Mal sei como ele se chama, / Mas entendo o que ele quer!
Se deitou na minha cama / E me chama de mulher.
Foi chegando sorrateiro / E antes que eu dissesse não,
Se instalou feito um posseiro / Dentro do meu coração.


Quem me conhece já ouviu a frase: “fui seduzida pela Igreja Anglicana”, mas até então não conseguia expressar como isto aconteceu. Foi então que acordei, fui cumprir com meus afazeres diários, comecei a pensar no momento que estou vivendo. É como em um relacionamento que amadurece, as pessoas começam a reinterpretar sua jornada e entender o momento em que chegaram neste relacionamento. Foi então que percebi que era amor verdadeiro, daqueles que duram a vida toda. Que nos dá vontade de envelhecer junto.
Este realmente me chegou como quem chega do nada, não me trouxe nada, nem me questionou. Eu entendo o que ele quer e me chama de mulher (reconheci minha humanidade e falibilidade). É esse amor, essa espiritualidade, esse Deus que eu quero viver por todos os dias de minha vida.
Espero que outras pessoas possam encontrar esse amor maduro, sem mentiras, sem falsas promessas, amor do tipo que reconhece nossas fraquezas, nossos defeitos, nossa imperfeição… E que ainda assim nos ama, nos entende e não nos cobra para ser outra pessoa. É este Deus que eu encontrei na Igreja Anglicana. Encontrei morada e mesmo que haja alguns dissabores como em qualquer relacionamento, serei fiel a Ele como Ele é a mim. 

“quem beber da água que Eu lhe der, nunca mais terá sede” (Jo 4:14).

Minha busca por água terminou. Sinto-me saciada. Uma mulher completa, madura, que não aceita tudo de cabeça baixa, disposta a servir sem medo de sentir-me inferior e dona de meu nariz. Como após uma noite de amor, encontro-me em meu leito em estase, satisfeita e completa.
Por isso meus amigos, não me venham com promessas vãs, quem conhece o verdadeiro amor não o abandona. Não existe hoje no mundo uma outra morada que me caiba. Nossa igreja pode ser pequena e pobre, mas “não há lugar como nosso lar”.
Conheço bem o meu amado e assisto assustada a tentativa de o mutilarem e o desdenharem. Não entendo como após deitar se em seu leito alguns tentam lhe rasgar os lençóis e o mancha-lo por brigas de poder. Quem é maior em um relacionamento? Com certeza nenhuma das partes! O casamento só existe quando ambos se entregam e firmam um compromisso de, mesmo com tantas diferenças, viverem juntos e respeitar-se na riqueza e na pobreza, na saúde e na doença. Espero que os amantes possam se conciliar para novamente deitarem juntos em pastos verdejantes.
Como a mulher samaritana isolada, esquecida, menosprezada, pecadora. Fui encontrada em meio meus afazeres diários e Ele chegou sorrateiro/ e antes que eu disse não/ se instalou feito um posseiro/ dentro do meu coração.
Este é meu testemunho, Ingrit Jeampietri.